O teorema da utilidade de von Neumann-Morgenstern, teorema vital para a teoria da decisão, demonstra que a escolha racional sob incerteza envolve a tomada de decisões que visam maximizar o valor esperado de alguma função de utilidade cardinal, ou seja, uma função cuja saída expressa não apenas expressa a relação de preferência das possíveis saídas, mas a intensidade da preferência. O teorema constitui a base da teoria da utilidade esperada .
Em 1947, John von Neumann e Oskar Morgenstern provaram que qualquer indivíduo cujas preferências satisfaçam quatro axiomas possui uma função de utilidade, onde as preferências desse indivíduo podem ser representadas em uma escala intervalar. Ou seja, eles provaram que um agente é VNM-racional se e somente se existe uma função u: X →
R
{\displaystyle \mathbb {R} }
(definida sobre o conjunto de resultados possíveis X) tal que toda preferência do agente é caracterizada pela maximização do valor esperado de u. Esta função é denominada utilidade VNM do agente. É importante ressaltar que o teorema não postula um "desejo consciente" do agente em maximizar u; o objetivo é garantir, formalmente, a existência de tal função como uma representação matemática do comportamento observado. Essa função e suas transformações afins positivas (como multiplicá-la por um escalar positivo ou somar uma constante) são as únicas representações capazes de descrever tais preferências de forma consistente. A utilidade VNM é uma utilidade de decisão, pois é usada para descrever decisões . Ela está relacionada, mas não necessariamente é equivalente, à utilidade do utilitarismo de Bentham.
O Set-up No teorema, um agente individual depara-se com opções denominadas loterias. Dados alguns resultados mutuamente exclusivos, uma loteria é um cenário onde cada resultado ocorre com uma probabilidade determinada, sendo a soma de todas as probabilidades igual a um. Por exemplo, para dois resultados A e B ,
L = 0.25 A + 0.75 B
{\displaystyle L=0.25A+0.75B}
descreve um cenário onde P(A) = 25% é a probabilidade de A ocorrer e P(B) = 75% sendo que apenas um deles ocorrerá. De forma mais geral, para uma loteria com muitos resultados possíveis Ai, escrevemos:
L = ∑
p
i
A
i
,
{\displaystyle L=\sum p_{i}A_{i},}
com
∑
p
i
= 1
{\displaystyle \sum p_{i}=1}
Os resultados em uma loteria podem, por sua vez, ser loterias envolvendo outros resultados (loterias compostas). Nesses casos, a obtenção dos eventos finais é calculada de forma equivalente à de uma loteria simples, embora com mais passos: 0,5(0,5 A + 0,5 B) + 0,5 C = 0,25 A + 0,25 B + 0,50 C. Se a loteria M for preferida à loteria L, escrevemos
M ≻ L
{\displaystyle M\succ L}
ou, equivalentemente,
L ≺ M
{\displaystyle L\prec M}
Se o agente for indiferente entre L e M, escrevemos a relação de indiferença
L ∼ M .
{\displaystyle L\sim M.}
Se M for preferido em relação a L ou visto com indiferença em relação a L, escrevemos
L ⪯ M .
{\displaystyle L\preceq M.}
Os axiomas Os quatro axiomas da racionalidade VNM são completude, transitividade, continuidade e independência. Esses axiomas, com exceção da continuidade, são frequentemente justificados pelos teoremas do livro holandês (enquanto a continuidade é usada para descartar utilidades lexicográficas ou infinitesimais).
Axioma 1 (Completude) Para quaisquer loterias
L
{\displaystyle L}
e
M
{\displaystyle M}
, temos necessariamente que
L ⪰ M
{\displaystyle \,L\succeq M}
ou
M ⪰ L
{\displaystyle \,M\succeq L}
. (o indivíduo deve expressar alguma preferência ou indiferença ). Observe que isso implica reflexividade, uma vez que
∀ L , L ∼ L
{\displaystyle \forall L,L\sim L}
, logo
∀ L , L ⪰ L
{\displaystyle \forall L,L\succeq L}
.
Axima 2 (Transitividade): Se
L ⪰ M
{\displaystyle \,L\succeq M}
e
M ⪰ N
{\displaystyle \,M\succeq N}
, então
L ⪰ N
{\displaystyle \,L\succeq N}
. O Axioma 1 e o Axioma 2, juntos, podem ser reformulados como a afirmação de que a preferência do indivíduo é uma pré-ordem total. Axioma 3 (Continuidade): A continuidade pressupõe a existência de um "ponto de indiferença/equilíbrio" entre ser melhor ou pior do que uma determinada opção intermediária:
Se
L ⪯ M ⪯ N
{\displaystyle \,L\preceq M\preceq N}
, então existe uma probabilidade
p ∈ [ 0 , 1 ]
{\displaystyle \,p\in [0,1]}
de modo que
p L + ( 1 − p ) N
∼
M
{\displaystyle \,pL+(1-p)N\,\sim \,M}
Em vez de continuidade, pode-se assumir a propriedade arquimediana, que não envolve uma igualdade exata. Ela afirma que qualquer separação de preferências é mantida sob um desvio suficientemente pequeno nas probabilidades:
Axioma 3′ (Propriedade Arquimediana): Se
L ≺ M ≺ N
{\displaystyle \,L\prec M\prec N}
, então existe uma probabilidade
ε ∈ ( 0 , 1 )
{\displaystyle \,\varepsilon \in (0,1)}
de modo que
( 1 − ε ) L + ε N
≺
M
≺
ε L + ( 1 − ε ) N .
{\displaystyle \,(1-\varepsilon )L+\varepsilon N\,\prec \,M\,\prec \,\varepsilon L+(1-\varepsilon )N.}
Apenas uma das condições (3) ou (3′) precisa ser assumida, pois a outra será implícita pelo teorema. Axioma 4 (Independência): Pressupõe que a preferência entre duas loterias se mantém inalterada independentemente da introdução de um terceiro resultado comum a ambas.
Para qualquer
M
{\displaystyle M}
e
p ∈ [ 0 , 1 )
{\displaystyle p\in [0,1)}
(com a parte "irrelevante",
M
{\displaystyle M}
, da loteria sublinhada):
L ⪯ N
⟺
( 1 − p )
L +
p M
_
⪯ ( 1 − p )
N +
p M
_
{\displaystyle L\preceq N\quad \iff \quad \,(1-p)\,L+{\underline {pM}}\preceq (1-p)\,N+{\underline {pM}}}
Em outras palavras, os termos comuns aos dois lados (envolvendo
M
{\displaystyle M}
) "cancelam-se", não afetando a decisão, pois a probabilidade de
M
{\displaystyle M}
ocorrer é a mesma em ambas as opções. Note que a condição "se" é necessária para que o teorema funcione. Sem ela, é possível contruir um contra exemplo problemático: tendo apenas dois resultados possíveis,
A , B
{\displaystyle A,B}
e o agente é indiferente em
{ p A + ( 1 − p ) B : p ∈ [ 0 , 1 ) }
{\displaystyle \{pA+(1-p)B:p\in [0,1)\}}
mas prefere estritamente todas essas misturas ao resultado puro
A
{\displaystyle A}
. Isso impossibilitaria a representação por uma função de utilidade linear. Mas, usando a direção "se", podemos argumentar que
1 2
A +
1 2
B ⪰
1 2
B +
1 2
B
{\displaystyle {\frac {1}{2}}A+{\frac {1}{2}}B\succeq {\frac {1}{2}}B+{\frac {1}{2}}B}
implica
A ⪰ B
{\displaystyle A\succeq B}
excluindo, portanto, este contraexemplo. O axioma da independência implica o axioma sobre a redução de loterias compostas:
Axioma 4′ (Redução de loterias compostas): Para quaisquer loterias
L ,
L ′
, N ,
N ′
{\displaystyle L,L',N,N'}
e qualquer
p , q ∈ [ 0 , 1 ]
{\displaystyle p,q\in [0,1]}
,
Se
L ∼ q
L ′
+ ( 1 − q )
N ′
,
{\displaystyle {\text{Se}}\qquad L\sim qL'+(1-q)N',}
Então
( 1 − p ) L + p N ∼ ( 1 − p ) q
L ′
+ ( 1 − p ) ( 1 − q )
N ′
+ p N .
{\displaystyle {\text{Então}}\quad (1-p)L+pN\sim (1-p)qL'+(1-p)(1-q)N'+pN.}
Para entender como o Axioma 4 implica o Axioma 4', basta colocar
L
{\displaystyle L}
e
q
L ′
+ ( 1 − q )
N ′
,
{\displaystyle qL'+(1-q)N',}
condicionados por 1-p como
L
{\displaystyle L}
e
N
{\displaystyle N}
foram no axioma 4, e
N
{\displaystyle N}
por p como
M
{\displaystyle M}
foi.
O teorema Para qualquer agente VNM-racional (ou seja, que satisfaça os axiomas 1–4), existe uma função u que atribui a cada resultado A um número real u(A) tal que para quaisquer duas loterias,
L ≺ M
⟺
E ( u ( L ) ) < E ( u ( M ) ) ,
{\displaystyle L\prec M\qquad \iff \qquad E(u(L))<E(u(M)),}
onde E(u(L)), ou mais brevemente Eu(L), é dado por
E u (
p
1
A
1
+ ⋯ +
p
n
A
n
) =
p
1
u (
A
1
) + ⋯ +
p
n
u (
A
n
) .
{\displaystyle Eu(p_{1}A_{1}+\cdots +p_{n}A_{n})=p_{1}u(A_{1})+\cdots +p_{n}u(A_{n}).}
Com
p
i
{\displaystyle p_{i}}
sendo as probabilidades associadas aos resultados
A
i
{\displaystyle A_{i}}
respectivos. Assim, u pode ser determinado por preferências entre loterias simples, ou seja, aquelas da forma pA+(1−p)B tendo apenas dois resultados. Por outro lado, as preferências de qualquer agente que atue para maximizar a expectativa de uma função u obedecerão aos axiomas 1–4. Tal função é chamada de utilidade de von Neumann–Morgenstern (VNM) do agente.
Esboço de prova A demonstração é construtiva: ela mostra como a função desejada
u
{\displaystyle u}
pode ser encontrada. Aqui descrevemos o processo de construção para o caso em que o número de resultados certos é finito. Supomos que existam n resultados certos,
A
1
...
A
n
{\displaystyle A_{1}\dots A_{n}}
Note que todo resultado certo pode ser visto como uma loteria: trata-se de uma loteria degenerada na qual o resultado é selecionado com probabilidade 1. Portanto, pelos axiomas de Completude e Transitividade, é possível ordenar os resultados do pior para o melhor:
A
1
⪯
A
2
⪯ ⋯ ⪯
A
n
{\displaystyle A_{1}\preceq A_{2}\preceq \cdots \preceq A_{n}}
Assumimos que pelo menos uma das desigualdades é estrita (caso contrário, a função de utilidade é trivial — uma constante). Portanto,
A
1
≺
A
n
{\displaystyle A_{1}\prec A_{n}}
Utilizamos esses dois resultados extremos — o pior e o melhor — como unidade de escala da nossa função de utilidade e definimos:
u (
A
1
) = 0
{\displaystyle u(A_{1})=0}
and
u (
A
n
) = 1
{\displaystyle u(A_{n})=1}
L ( p ) = p ⋅
A
n
+ ( 1 − p ) ⋅
A
1
{\displaystyle L(p)=p\cdot A_{n}+(1-p)\cdot A_{1}}
Observe que
L ( 0 ) ∼
A
1
{\displaystyle L(0)\sim A_{1}}
e
L ( 1 ) ∼
A
n
{\displaystyle L(1)\sim A_{n}}
. Pelo axioma da continuidade, para todo resultado certo
A
i
{\displaystyle A_{i}}
, existe uma probabilidade
q
i
{\displaystyle q_{i}}
de modo que:
L (
q
i
) ∼
A
i
{\displaystyle L(q_{i})\sim A_{i}}
. Portanto temos
0 =
q
1
≤
q
2
≤ ⋯ ≤
q
n
= 1
{\displaystyle 0=q_{1}\leq q_{2}\leq \cdots \leq q_{n}=1}
. Para cada
i
{\displaystyle i}
, a função de utilidade para o resultado
A
i
{\displaystyle A_{i}}
é definida como
u (
A
i
) =
q
i
{\displaystyle u(A_{i})=q_{i}}
então a utilidade de cada loteria
M =
∑
i
p
i
A
i
{\displaystyle M=\sum _{i}p_{i}A_{i}}
é a expectativa de u :
u ( M ) = u
(
∑
i
p
i
A
i
)
=
∑
i
p
i
u (
A
i
) =
∑
i
p
i
q
i
{\displaystyle u(M)=u\left(\sum _{i}p_{i}A_{i}\right)=\sum _{i}p_{i}u(A_{i})=\sum _{i}p_{i}q_{i}}
Para entender por que essa função de utilidade é consistente com as preferências dadas, considere uma loteria.
M =
∑
i
p
i
A
i
{\displaystyle M=\sum _{i}p_{i}A_{i}}
, que seleciona o resultado
A
i
{\displaystyle A_{i}}
com probabilidade
p
i
{\displaystyle p_{i}}
. Como, segundo nossa hipótese, o tomador de decisões é indiferente entre o resultado certo e o resultado incerto.
A
i
{\displaystyle A_{i}}
e a loteria
q
i
⋅
A
n
+ ( 1 −
q
i
) ⋅
A
1
{\displaystyle q_{i}\cdot A_{n}+(1-q_{i})\cdot A_{1}}
, pelo axioma da redução, ele é indiferente entre a loteria
M
{\displaystyle M}
e a seguinte loteria:
M ′
=
∑
i
p
i
[
q
i
⋅
A
n
+ ( 1 −
q
i
) ⋅
A
1
]
{\displaystyle M'=\sum _{i}p_{i}[q_{i}\cdot A_{n}+(1-q_{i})\cdot A_{1}]}
M ′
=
(
∑
i
p
i
q
i
)
⋅
A
n
+
(
∑
i
p
i
( 1 −
q
i
)
)
⋅
A
1
{\displaystyle M'=\left(\sum _{i}p_{i}q_{i}\right)\cdot A_{n}+\left(\sum _{i}p_{i}(1-q_{i})\right)\cdot A_{1}}
M ′
= u ( M ) ⋅
A
n
+ ( 1 − u ( M ) ) ⋅
A
1
{\displaystyle M'=u(M)\cdot A_{n}+(1-u(M))\cdot A_{1}}
A loteria
M ′
{\displaystyle M'}
É, na verdade, uma loteria em que o melhor resultado é ganho com probabilidade.
u ( M )
{\displaystyle u(M)}
E, caso contrário, o pior resultado possível. Como para quaisquer dois agentes VNM X e Y, suas funções de utilidade VNM uX e uY são determinadas apenas a menos de constantes aditivas e escalares positivos. Isso significa que, assim como ocorre com as escalas de temperatura, por exemplo, o 'zero' e a 'unidade de medida' da utilidade são arbitrários para cada indivíduo. Portanto, expressões como uX(L) +uY(L) e uX(L) − uY(L) não são definidos canonicamente, nem comparações como uX(L) < uY(L) são canonicamente verdadeiras ou falsas. Em particular, a referida 'utilidade VNM total' e a 'utilidade VNM média' de uma população não possuem significado canônico sem hipóteses de normalização." Como para quaisquer dois agentes VNM X e Y, suas funções de utilidade VNM uX e uY são determinadas apenas a menos de constantes aditivas e escalares positivos. Isso significa que, assim como ocorre com as escalas de temperatura, o 'zero' e a 'unidade de medida' da utilidade são arbitrários para cada indivíduo. Portanto, expressões como uX(L) +uY(L) e uX(L) − uY(L) não são definidos canonicamente, nem comparações como uX(L) < uY(L) são canonicamente verdadeiras ou falsas. Em particular, a referida 'utilidade VNM total' e a 'utilidade VNM média' de uma população não possuem significado canônico sem hipóteses de normalização."
L ≺ M
{\displaystyle L\prec M\;}
if and only if
E ( u ( L ) ) < E ( u ( M ) ) .
{\displaystyle E(u(L))<E(u(M)).}
Reação Von Neumann e Morgenstern anteciparam surpresa quanto à força de sua conclusão. Mas, segundo eles, a função de utilidade funciona por ser construída precisamente para desempenhar o papel de algo cuja expectativa é maximizada:"Muitos economistas acharão que estamos assumindo muito(...) Não mostramos demais?(...) Até onde podemos ver, nossos postulados são plausíveis(...) Definimos, na prática, a utilidade numérica como aquilo para o qual o cálculo das expectativas matemáticas é legítimo." – VNM 1953, § 3.1.1 p.16 e § 3.7.1 p. 28 Assim, o conteúdo do teorema é que a construção de u é possível, e eles pouco afirmam sobre sua natureza.
Consequências
Consideração automática da aversão ao risco
É comum que, diante de situações reais de risco financeiro, uma pessoa não aja visando maximizar o valor esperado de seus ativos em reais. Por exemplo, alguém com apenas R$ 1.000 em economias pode hesitar em arriscar tudo por uma chance de 20% de ganhar R$ 10.000, mesmo que...
20 % ( R $ 10
000 ) + 80 % ( R $ 0 ) = $ 2000 > 100 % ( R $ 1000 )
{\displaystyle 20\%(R\$10\,000)+80\%(R\$0)=\$2000>100\%(R\$1000)}
No entanto, se a pessoa for racional segundo o modelo VNM, esses fatos são automaticamente considerados em sua função de utilidade u . Neste exemplo, poderíamos concluir que
20 % u ( R $ 10
000 ) + 80 % u ( R $ 0 ) < u ( R $ 1000 )
{\displaystyle 20\%u(R\$10\,000)+80\%u(R\$0)<u(R\$1000)}
onde os valores em real aqui representam, na verdade, resultados, as três situações possíveis que o indivíduo pode enfrentar. Em particular, u pode exibir propriedades como u (R$1) + u (R$1) ≠ u (R$2) sem contradizer a racionalidade VNM. Isso leva a uma teoria quantitativa da aversão ao risco monetário.
Implicações para a hipótese da utilidade esperada Predefinição:Decision theoryEm 1738, Daniel Bernoulli publicou um tratado no qual postula que o comportamento racional pode ser descrito como a maximização o valor esperado de uma função u, que não precisa estar atrelada ao valor monetário nominal, explicando assim a aversão ao risco. Esta é a hipótese da utilidade esperada. O objetivo do teorema da utilidade esperada é fornecer "condições modestas" (ou seja, axiomas) que descrevam quando a hipótese da utilidade esperada é válida, as quais podem ser avaliadas direta e intuitivamente:"Os axiomas não devem ser muito numerosos, seu sistema deve ser o mais simples e transparente possível, e cada axioma deve ter um significado intuitivo imediato pelo qual sua adequação possa ser julgada diretamente. Em uma situação como a nossa, este último requisito é particularmente vital, apesar de sua vagueza: queremos tornar um conceito intuitivo passível de tratamento matemático e ver com a maior clareza possível quais hipóteses isso exige." – VNM 1953 § 3.5.2, p. 25 Assim, as afirmações de que a hipótese da utilidade esperada não caracteriza a racionalidade devem rejeitar um dos axiomas do VNM. Surgiram diversas teorias generalizadas da utilidade esperada, a maioria das quais abandona ou relaxa o axioma da independência.
Implicações para a ética e a filosofia moral Como o teorema não pressupõe restrições sobre a natureza dos resultados das apostas, estes podem abranger eventos moralmente significativos — como a vida, a morte, a doença ou a saúde de terceiros. Ao definir uma função de utilidade adequada, um agente racional de Von Neumann-Morgenstern é capaz de ponderar tais desfechos, sacrificando riqueza ou bem-estar pessoal em benefício alheio. Em outras palavras, tanto o 'ganho pessoal' quanto o 'altruísmo' podem ser integrados à função de utilidade de um indivíduo. Portanto, toda a gama de comportamentos, desde os estritamente autocentrados até os neutros em relação ao agente, é compatível com a estrutura de preferências do modelo.
Distinção em relação a outras noções de utilidade Certas teorias morais utilitaristas focam em métricas como 'utilidade total' ou 'utilidade média' de coletivos, definindo a moralidade pela priorização da felicidade do coletivo em detrimento da própria (considerando o indivíduo como parte do coletivo). Embora essas ideias possam se relacionar à utilidade de Von Neumann-Morgenstern (VNM), elas são conceitualmente distintas:
A utilidade VNM é uma utilidade de decisão: Ela representa o critério pelo qual o agente efetivamente escolhe. Portanto, por definição, é impossível que o agente a desconsidere no momento da ação. A utilidade VNM não é canonicamente aditiva entre indivíduos: Sem suposições adicionais de normalização, os conceitos de 'utilidade VNM total' ou 'média' carecem de significado imediato, dado que as escalas de utilidade são definidas individualmente. O termo E-utilidade para "utilidade da experiência" foi cunhado para se referir aos tipos de utilidade "hedonista" como o princípio da maior felicidade de Bentham . Visto que a moralidade molda as decisões, a ética de um agente racional VNM está intrinsecamente refletida em sua própria função de utilidade. Assim, a moralidade desse agente pode ser caracterizada pela correlação entre sua utilidade VNM e a utilidade (seja VNM, E-utilidade ou 'felicidade') do coletivo.
Limitações
jogos de azar aninhados Visto que se L e M são loterias, então pL+(1−P)M é matematicamente "expandida" e tratada como uma loteria única. Isso está relacionado ao paradoxo de Ellsberg que demonstra como as pessoas tendem a evitar a "ambiguidade" ou a percepção de riscos sobre riscos. Para um humano, a incerteza em camadas (como uma loteria cujo prêmio é outra loteria) costuma gerar um desconforto maior do que uma loteria simples com a mesma probabilidade objetiva. Von Neumann e Morgenstern reconheceram essa limitação, admitindo que seu modelo foca no valor dos resultados e não na utilidade intrínseca do ato de jogar ou da espera pelo sorteio:"...conceitos como a utilidade específica em apostas não podem ser formulados sem contradição neste nível. Isso pode parecer uma afirmação paradoxal. Mas qualquer pessoa que tenha tentado seriamente axiomatizar esse conceito elusivo provavelmente concordará com ela." – VNM 1953 § 3.7.1, p. 28 .
Incomparabilidade entre agentes
Aplicabilidade à economia Foi demonstrado que a hipótese da utilidade esperada possui precisão preditiva imperfeita em uma série de experimentos empíricos realizados em laboratório, como o paradoxo de Allais.
Veja também Modelo de utilidade esperada subjetiva de Savage Modelo de utilidade esperada subjetiva de Anscombe-Aumann Teorema do espaço de mistura
Referências e leituras adicionais
Predefinição:Decision theory